“Humanistas” são florzinhas do MAL

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O “movimento libertário” é conhecido por muitas coisas: frases como “Imposto é roubo”, memes e também pela sua desunião.

Uma dessas rixas entre “libertários” é a divisão entre “humanistas” e “brutalistas” – os dois no sentido que o Jeffrey Tucker deu. Não me ocuparei de explicar como se deu essa divisão, nem o que significa ser “humanista” ou “brutalista”, sugiro que leiam o artigo original do Tucker caso tenham alguma dúvida a respeito disso.

Estou escrevendo este artigo para demonstrar por A+B que o “humanismo” vai contra o ethos “libertário”. É claro, primeiro tenho que abordar qual seria o ethos libertário correto. Mãos à obra.

O Ethos Libertário

Demonstrei em um artigo anterior que é necessário que os libertários sejam também conservadores. Em outras palavras, libertário bom, é paleolibertário. Rothbard, Hoppe concordam nisso.
Qual é o ethos – modo de agir correto – do paleolibertário?

Ora, primeiro precisamos entender o que é o Paleolibertarianismo e por que ele foi criado. Nas palavras de Rothbard (o artigo traduzido pode ser lido em https://rothbardbrasil.com/por-que-paleo):

“[…] Portanto, não focaram no ponto principal. O ponto do novo movimento paleo, incluindo a designação, é nos separar do movimento em geral, encontrar e inspirar outros paleos, e formar nosso próprio e separado movimento autoconsciente.

O que estamos dizendo, resumidamente, é que a liberdade é extraordinária e não queremos enfraquece-la ou dilui-la nem um pouquinho, mas que para nós, afinal, ela simplesmente não é o suficiente. Ainda somos libertários hard core, mas agora nós não estamos dispostos a nos contentar, com um movimento, somente pela liberdade. Nós lutamos por mais que liberdade.

Dissemos que uma certa matriz cultural é essencial para a liberdade. Posso entender porque esse tipo de ideia pode irritar libertários; por exemplo, o teórico político de Oxford John Gray tem, nos últimos anos, sinalizado sua deserção do liberalismo clássico (que já é uma forma diluída de libertarianismo) ao falar sobre a necessidade de uma certa cultura em complemento a liberdade: este tipo de conversa é quase sempre o prelúdio a uma reivindicação por poder estatal – e certamente o é no caso de Gray.

Mas este não é o ponto, embora eu concorde que a liberdade tende a florescer mais em uma cultura burguesa cristã. Eu estou disposto admitir que você pode ser um bom libertário hard core e ainda ser um hippie, um hostil a burguesia e ao cristianismo, um viciado em drogas, um vadio, um indivíduo rude e intolerável, ou mesmo um verdadeiro ladrão.

Porém, o ponto é que nós paleos não estamos mais dispostos a ter como colegas de movimento estes tipos de gente. Por duas razões distintas e poderosas, e cada uma delas sozinhas já seria razão suficiente para se formar um movimento paleo separado e distinto. Uma é estratégica: pois estes tipos de pessoas tendem, por razões óbvias, a enojar, e de fato repelir, a maioria das “pessoas reais”, pessoas que trabalham para ganhar a vida ou pagar as contas, pessoas da classe média ou trabalhadora que, na antiga e boa frase, buscam uma ‘vida digna’. […]”

Ou seja, Rothbard admite que nossa cultura é a que mais tende a criar libertários raiz, diz que  outros tipos de pessoas podem também sê-lo, mas defende que não “estamos mais dispostos a ter como colegas de movimento estes tipos de gente” e que por traz disso há dois motivos: um estratégico – que é importante – mas também o outro que é o que ele explica no próximo trecho.

“[…] Mas nossas razões não são apenas estratégicas. Pois entre as pessoas repelidas estão nós mesmos, e apesar de obviamente possuirmos um nível de tolerância bem alto, ele foi enfim ultrapassado, e é com um sentimento jubiloso de alívio que limpamos os dejetos dos libertários padrões, ou “modais”, da sola de nossos sapatos.

Quando, no Libertarian Forum, eu costumava criticar os “eternos adolescentes” e os malucos – depois os apelidando de luftmenschen – eu era tratado ou como um adorável ou odiável excêntrico, mas o ponto é que estas posições culturais não eram consideradas nem um pouco relevantes para minha doutrina libertária. Elas são mais relevantes, ainda que em um plano diferente, do que a própria doutrina. Mas o ponto é que não pode mais ser aceitável negligenciar a parte “paleo” da equação. […]”

Ou seja, a parte conservadora do paleolibertarianismo é a MAIS importante na Guerra Cultural e Moral em que estamos inseridos.
Daí concluo que o ethos do Paleolibertário deve sair mais da parte Paleo do que da parte “libertária”.
E qual é o ethos conservador? Consultemos Roger Scruton, filósofo britânico e o conservador mais importante vivo. Em um comentário sobre seu livro The Meaning of Conservatism (comentário disponível em https://www.roger-scruton.com/articles/330-the-meaning-of-conservatism):

” […] Scruton’s idea of conservatism – what in America we tend to call “paleo-conservatism” – might well shock the sensibilities of those American conservatives” who view it as little more than the workings of the free market. Conservatism, says Scruton, is neither automatic hostility toward the state nor the desire to limit the state’s obligations toward the citizen.

Rather, conservatism regards the individual not as the premise but the conclusion of politics, a politics that is fundamentally opposed to the ethic of social justice, to equality of station, income, and achievement, or to the attempt to bring major institutions of society (such as schools and universities) under government control. […]”
Ou seja, na Política, Scruton defende que o indivíduo é a conclusão, o fim que deve ser buscado. E a agenda conservadora, para o filósofo, é fundamentalmente oposta à ética da justiça social, à igualdade de renda, de resultados, etc.
Isso significa que:

I) não podemos, enquanto paleolibertários, lutar na Guerra Cultural no lado dos SJWs e afins; eles são nossos inimigos.
II) não é possível ser conservador – pelo menos não no sentido paleo – e defender que a identidade do grupo é mais importante do que o indivíduo.

Ora, se são os indivíduos que importam – em um primeiro momento – e transcendemos políticas sociais da esquerda, como devemos nos portar ao defender o Paleolibertarianismo? Vejamos o que dizem os libertários.
Hoppe explica em ‘Democracy: The God That Failed’:

“In a covenant…among proprietor and community tenants for the purpose of protecting their private property, no such thing as a right to free (unlimited) speech exists, not even to unlimited speech on one’s own tenant-property. One may say innumerable things and promote almost any idea under the sun, but naturally no one is permitted to advocate ideas contrary to the very covenant of preserving and protecting private property, such as democracy and communism. There can be no tolerance toward democrats and communists in a libertarian social order. They will have to be physically separated and removed from society.”

Repito – traduzido: “não pode haver tolerância em relação a democratas e a comunistas em uma ordem social libertária.”

Mais uma vez, leia comigo: “não pode haver tolerância em relação a democratas e a comunistas em uma ordem social libertária”.

Ora, se numa ordem social existente, já não podemos nos dar ao luxo de tolerar esse tipo de gente, como poderíamos tolera-los durante a Guerra pela liberdade? 

Essa é a pergunta que os “humanistas” devem responder.
O primeiro princípio do ethos libertário é a intolerância em relação a comunistas e a democratas. Ponto.
Só isso já destrói a defesa do “humanismo” por parte de Tucker.
Quais são os outros princípios desse ethos?

Abordarei isso em um artigo específico sobre o assunto. Por ora, passemos à crítica pura do “humanismo”.

Para não dizer que não falei de flores

Cito Tucker no seu artigo polêmico “Against Libertarian Brutalism – Will libertarianism be brutalist or humanitarian? Everyone needs to decide.” de 2014:

“Why should we favor human liberty over a social order ruled by power? In providing the answer, I would suggest that libertarians can generally be divided into two camps: humanitarians and brutalists.

The humanitarians are drawn to reasons such as the following. Liberty allows peaceful human cooperation. It inspires the creative service of others. It keeps violence at bay. It allows for capital formation and prosperity. It protects human rights of all against invasion. It allows human associations of all sorts to flourish on their own terms. It socializes people with rewards toward getting along rather than tearing each other apart, and leads to a world in which people are valued as ends in themselves rather than fodder in the central plan.

We know all of this from history and experience. These are all great reasons to love liberty.

But they are not the only reasons that people support liberty. There is a segment of the population of self-described libertarians—described here as brutalists—who find all the above rather boring, broad, and excessively humanitarian. To them, what’s impressive about liberty is that it allows people to assert their individual preferences, to form homogeneous tribes, to work out their biases in action, to ostracize people based on “politically incorrect” standards, to hate to their heart’s content so long as no violence is used as a means, to shout down people based on their demographics or political opinions, to be openly racist and sexist, to exclude and isolate and be generally malcontented with modernity, and to reject civil standards of values and etiquette in favor of antisocial norms.

These two impulses are radically different. The first values the social peace that emerges from freedom, while the second values the freedom to reject cooperation in favor of gut-level prejudice. The first wants to reduce the role of power and privilege in the world, while the second wants the freedom to assert power and privilege within the strict confines of private property rights and the freedom to disassociate. […]”

Traduzo o trecho mais relevante para este artigo: “The humanitarians are drawn to reasons such as the following. Liberty allows peaceful human cooperation. It inspires the creative service of others. It keeps violence at bay. It allows for capital formation and prosperity. It protects human rights of all against invasion. It allows human associations of all sorts to flourish on their own terms. It socializes people with rewards toward getting along rather than tearing each other apart, and leads to a world in which people are valued as ends in themselves rather than fodder in the central plan.”

“[…]Os ‘humanistas’ tendem para respostas como as seguintes. A liberdade permite cooperação humana pacífica. Ela inspira o senso de serviço criativo dos outros. […] Ela protege os direitos humanos contra invasão. Permite que associações humanas de todas as formas florescerem em seus próprios termos. […]”

Percebe a diferença no “tom” do discurso? Ou na tentativa de se enquadrar na agenda gramsciana?
Isso é um libertário “humanista”: uma prostituta dos comunistas.

São florzinhas do mal que devem ser arrancadas a partir da raiz, como se deve fazer com todo mal. 

O que se segue daí?

Segue que “humanistas” e “brutalistas” estão em lados diferentes da Guerra Cultural. O “brutalista” luta contra o establishment esquerdista, contra a Grande Mídia, e defende INTRANSIGENTEMENTE a propriedade privada.

Os humanistas? Eles são parte do status quo. Eles se infiltram no Estado. Vide Raphael Lima, os “Livres”, o Students for Liberty.

Eles tendem ao gradualismo e são covardes na defesa da propriedade privada. Não são libertários coisíssima alguma, apenas se utilizam dessa imagem para atrair as massas de liberteens e outros “libertários” que tendem ao esquerdismo na questão moral.
“Humanistas” são florzinhas do mal que devem ser arrancadas a partir da raiz, como se deve fazer com todo mal. 

 

Libertários devem ser conservadores. (Ponto)

É possível ser hoppeano e progressista? Não. Simples assim. É isto que pretendo demonstrar neste artigo. Responderei aos argumentos reunidos nas seguintes imagens e de autoria de Daniel Morais (não o conheço pessoalmente e não tenho nada contra ele, só contra esse seu modo de pensar).

Note que este artigo é complementar ao de Murray Rothbard intitulado “Por que Paleo?” (leitura obrigatória para o assunto: https://rothbardbrasil.com/por-que-paleo/).

Enfim, vamos por partes:
libertarios conservadores

Vamos ao texto:

“O fato de ela ser antiga é porque ela é intrínseca a humanidade e não um aspecto da ordem natural que ele levanta, se assim fosse possível postular, a linguagem em si, o sexo, o pecado seriam eminentemente conservadores. Portanto, a ética libertária é sim antiga, mas não antiga e conservadora, mas antiga e humana”.
Ora, e a ordem natural diz respeito ao quê, meu Deus do Céu? Será que o autor sabe o que é ordem natural antes de falar uma coisa dessas? Vamos a uma definição do próprio Hoppe, retirada do artigo “Os problemas com o conservadorismo atual e com uma ala do libertarianismo” (que pode ser lido aqui: https://mises.org.br/Article.aspx?id=1852):
“[…]O termo “conservador”, portanto, deve possuir uma acepção diferente. O único significado que ele pode ter é este: “conservador” se refere a alguém que acredita na existência de uma ordem natural, de um estado de coisas natural, que corresponde à natureza das coisas; que se harmoniza com a natureza e o homem.

Essa ordem natural, é claro, pode ser perturbada por acidentes e anomalias: terremotos e furacões; doenças e pragas; pelo surgimento de desajustados e idiotas; e por guerras, conquistas e tiranias. Mas não é difícil distinguir o normal do anormal (anomalias); o essencial do acidental.

Um pouco de abstração dissipa todas as confusões e permite que quase todos “vejam” o que é e o que não é natural, o que se encontra e não se encontra de acordo com a natureza das coisas. Além disso, o natural é, ao mesmo tempo, o estado de coisas mais duradouro. A ordem natural das coisas é antiga e sempre a mesma (apenas anomalias e acidentes sofrem mudanças); portanto, ela pode ser reconhecida por nós em todos os lugares e em todos os tempos.

“Conservador” refere-se a alguém que sabe distinguir aquilo que é antigo e natural daquilo que representam anomalias e acidentes circunstanciais.  Conservador é alguém que defende, apóia e ajuda a preservar o tradicional e o natural contra aquilo que é temporário e o anômalo.[…]”

Qualquer um que saiba LER e ENTENDER – em outras palavras, que não seja um analfabeto funcional – entende o que há de errado com o argumento do autor: ele desvinculou a ordem natural defendida pelo conservadorismo de uma ordem natural humana. Como Hoppe bem explicou, a ordem natural corresponde a um estado de coisas natural, que não é apenas um estado de coisas antigo, mas de plena harmonia entre o homem e a natureza. Ou seja, Daniel Morais, a Ordem Natural – conservadora – é também uma Ordem Humana. Deu para entender ou tem que desenhar? Ou seja, se o libertarianismo pertence à Ordem Humana, ele pertence à Ordem Natural e é conservador desta por definição.

Além de distorcer o que os conservadores entendem por Ordem Natural, o autor elabora um dos piores argumentos que já li sobre o assunto: se a ordem libertária – por ser antiga e humana – fosse conservadora, também a linguagem, o sexo e o pecado (alguém conhece “pecado” conservador????) o seriam. Ora, examinemos com atenção. Esses três – a linguagem, o sexo e o pecado – são elementos humanos praticamente onipresentes. Mas são pertencentes à Ordem Natural? Os três com certeza não. Caso você  defenda que o pecado é parte da harmonia entre o homem e a natureza, sugiro a leitura de Santo Agostinho e do clássico de John Milton: Paradise Lost.
A linguagem faz parte da Ordem Natural apenas acidentalmente, como resultado da sua necessidade para a organização de uma sociedade.
Já o sexo o faz por motivos biológicos.

Ou seja, os dois últimos não são atos políticos ou morais isolados; e o primeiro não pertence à Ordem Natural.

Daí se deduz outra coisa óbvia sobre a Ordem Natural: nem tudo que é humano pertence a ela; apenas o que é necessário para a harmonia entre o homem e a natureza, como definiu Hoppe. E os conservadores não pretendem se intrometer em tudo que é humano por mero prazer autoritário, mas devem sim defender ações morais essenciais para a preservação da Ordem Natural.

Dito isso, vamos à segunda imagem:

danielidiota

Outro argumento estúpido e erro de interpretação do texto do Hoppe: o filósofo alemão nunca disse que os conservadores deveriam ser libertários (vice-versa) apenas por tratar de objetos como a humanidade e cooperação social. Se há um objeto comum a libertários e conservadores é a Ordem Natural e sua preservação. Isso é o suficiente para argumentar que libertários devem ser conservadores? Provavelmente sim, mas existem muitos outros argumentos fortíssimos.